Mercado da acessibilidade: os números que explicam por que faltam especialistas

Mercado da acessibilidade: os números que explicam por que faltam especialistas

Censo, envelhecimento populacional, turismo e exigências legais: os dados que mostram um mercado bilionário ainda carente de profissionais qualificados.

por Equipe INAER4 min de leitura

Existe um mercado no Brasil em que a demanda é garantida por lei, cresce com o envelhecimento da população e tem escassez crônica de especialistas. É o mercado da acessibilidade arquitetônica e urbanística — e os números explicam por quê.

O tamanho real do público

O Censo 2022 registrou 14,4 milhões de pessoas com deficiência no país — 7,3% da população com 2 anos ou mais. A PNAD Contínua, com metodologia mais ampla, chegou a 18,6 milhões (8,9%). A diferença entre as pesquisas importa menos do que a ordem de grandeza: estamos falando de um público maior que a população inteira de Portugal.

E esse número é apenas o começo. Acessibilidade também atende:

  • 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (15,6% da população, contra 11,3% em 2010) — o grupo que mais cresce no país e que concentra 45,4% das pessoas com deficiência;
  • Pessoas com mobilidade reduzida temporária: gestantes, pessoas acidentadas, quem carrega crianças pequenas;
  • Todo mundo, em algum momento da vida — a premissa do desenho universal.
Acessibilidade não é nicho. É o único segmento da construção cujo público-alvo inclui, cedo ou tarde, 100% da população.

Demanda garantida por lei — e mal atendida

Desde a Lei Brasileira de Inclusão (2015), construção, reforma, ampliação e mudança de uso de edificações abertas ao público devem atender às normas de acessibilidade, e conselhos profissionais devem exigir essa responsabilidade nos registros técnicos. Alvarás e habite-se estão condicionados a isso.

O resultado é uma demanda contínua por serviços especializados:

  • Laudos técnicos de acessibilidade para certificação e regularização de edificações;
  • Adaptação do estoque construído — a imensa maioria dos edifícios brasileiros nasceu antes das exigências atuais;
  • Consultoria de projeto para incorporadoras, escolas, redes de varejo e órgãos públicos;
  • Vistorias e perícias em ações judiciais e Termos de Ajustamento de Conduta;
  • Certificações e selos municipais de acessibilidade.

O caso do turismo: dinheiro deixado na mesa

Dados do Ministério do Turismo indicam que, em 2024, 53,5% dos turistas com deficiência deixaram de viajar pelo Brasil por falta de acessibilidade. Nos Estados Unidos, onde o setor é mais maduro, viajantes com deficiência movimentaram US$ 58,7 bilhões em dois anos, segundo a Open Doors Organization — e raramente viajam sozinhos, multiplicando o impacto econômico.

Hotéis, restaurantes, centros de eventos e atrativos turísticos brasileiros que investem em acessibilidade disputam esse público praticamente sem concorrência.

Por que faltam especialistas

A formação tradicional de arquitetos e engenheiros dedica pouquíssimas horas à acessibilidade — em geral, uma passada rápida pela NBR 9050. O profissional aprende a "cumprir a norma", mas não a:

  • Elaborar um laudo que sustente uma certificação ou uma defesa em juízo;
  • Compatibilizar acessibilidade com patrimônio histórico, orçamento apertado e edificações existentes;
  • Dialogar com a experiência real de quem usa cadeira de rodas, bengala ou tem baixa visão;
  • Transformar o tema em produto: consultoria, vistoria, treinamento, certificação.

É essa lacuna entre conhecer a norma e dominar o serviço que mantém o mercado com poucos nomes de referência — e honorários acima da média para quem se posiciona.

Onde começar

Três movimentos práticos para entrar (ou crescer) nesse mercado: primeiro, domine profundamente o arcabouço técnico e legal — NBR 9050, NBR 16537, LBI e decretos. Segundo, monte portfólio com casos reais: um laudo bem-feito abre a porta do próximo. Terceiro, especialize-se formalmente — em um mercado onde quase ninguém tem título, a especialização vira o critério de desempate.

Referências

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Time do Instituto Nacional de Acessibilidade Eduardo Ronchetti, dedicado a formar profissionais e disseminar conhecimento sobre acessibilidade arquitetônica e urbanística no Brasil.

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